Eleições na Venezuela: a vitória simbólica da oposição ao governo do Estado natal de Hugo Chávez

A oposição venezuelana conseguiu no domingo (09/01) uma vitória política bastante simbólica ao conquistar o governo de Barinas, Estado natal do ex-presidente Hugo Chávez.

O candidato da coalizão Mesa de Unidade Democrática (MUD), Sergio Garrido, venceu com 55,36% dos votos o candidato governista do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), Jorge Arreaza, que obteve 41,27% da preferência do eleitorado, segundo os resultados anunciados pelo Colégio Eleitoral Regional pouco depois das 23h (hora local).

Quase três horas antes, Arreaza havia reconhecido sua derrota em uma mensagem postada no Twitter, na qual admitia não ter alcançado seu objetivo.

“Barinas querida. As informações que recebemos das nossas bases do PSUV indicam que, embora tenhamos aumentado em votação, não atingimos o objetivo. Agradeço de coração a nossa heroica militância. Continuaremos a proteger o povo barinês em todos os espaços”, escreveu Arreaza.

Pouco depois, a emissora oficial de televisão venezuelana fez o anúncio.

Os resultados do pleito farão de Sergio Garrido o primeiro membro da oposição a ocupar o governo de Barinas desde 1998.

É que a votação de domingo foi, na verdade, uma repetição das eleições em que a oposição também havia vencido em Barinas, mas que foram anuladas pelo Supremo Tribunal de Justiça (TSJ, na sigla em espanhol).

Em decisão de 29 de novembro, o tribunal reconheceu que o então candidato da oposição Freddy Superlano havia obtido mais votos do que o candidato à reeleição Argenis Chávez, candidato do chavismo e irmão do falecido presidente Hugo Chávez, mas ordenou a repetição do pleito porque o adversário da oposição havia sido desqualificado previamente pela Controladoria-Geral da República.

A decisão da Justiça foi criticada pela oposição, que argumentou que jamais havia sido levantado nenhum impedimento à candidatura de Superlano, cujo nome, aliás, havia sido incluído pelo governo em uma lista de opositores perdoados pelo presidente Nicolás Maduro.

Superlano classificou o ocorrido como um “golpe constitucional”, enquanto o diretor do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Roberto Picón, nomeado por proposta da oposição, afirmou em comunicado que o poder eleitoral desconhecia a desqualificação que pesava sobre Superlano e assegurou que com a repetição das eleições “não só se faltava gravemente com a autoridade do Conselho Nacional Eleitoral, como também com a vontade do povo de Barinas”.

Obstáculos e novos candidatos

Além da anulação dos resultados das eleições de 21 de novembro, a oposição venezuelana enfrentou outras dificuldades diante da repetição do pleito, já que seus possíveis candidatos também foram impedidos de concorrer.

Jorge Arreaza e Diosdado Cabello
Legenda da foto, Arreaza ao lado de Diosdado Cabello, considerado o número dois do chavismo

Ficaram fora da disputa Aurora Silva, mulher de Freddy Superlano; e o ex-deputado da Assembleia Nacional Julio César Reyes.

Por fim, a coalizão MUD acabou nomeando Sergio Garrido, que é deputado da Assembleia Legislativa do Estado de Barinas.

O partido governista PSUV também recorreu, por sua vez, à apresentação de um novo candidato, depois que Argenis Chávez anunciou no fim de novembro sua renúncia ao governo de Barinas, deixando nas mãos do partido a nomeação de um novo candidato.

O escolhido foi Arreaza, que foi casado com a filha mais velha de Hugo Chávez, e ocupou altos cargos no governo central desde 2011. Foi vice-presidente executivo; ministro das Relações Exteriores; ministro da Ciência e Tecnologia; ministro da Educação Universitária; ministro do Desenvolvimento das Minas; e ministro da Produção Nacional.

Um Estado chave

Barinas tem grande importância simbólica para o chavismo, por ser o Estado natal do falecido presidente Hugo Chávez.

Sergio Garrido
Legenda da foto, Garrido foi eleito com uma diferença de 14 pontos percentuais para o candidato governista, Jorge Arreaza

Desde 1998, todos os governadores eleitos neste estado eram parentes diretos de Chávez. Primeiro foi seu pai, Hugo de los Reyes Chávez, depois vieram seus irmãos Adán Chávez e Argenis Chávez.

Por estas mesmas razões, Barinas constitui um Estado importante para a oposição que, ao obter uma vitória ali, desfere um forte golpe simbólico no chavismo.

Ciente do que estava em jogo, o governo de Nicolás Maduro se dedicou a apoiar a candidatura de Arreaza, conforme denunciou em 7 de janeiro o diretor do CNE, Roberto Picón.

“Os mecanismos de controle e penalização à disposição do CNE são insuficientes para controlar uma ação orquestrada do Estado, numa campanha eleitoral, como a que se evidenciou em Barinas nas eleições de 9 de janeiro”, escreveu Rincón no Twitter

Posteriormente, ele afirmou que houve no Estado um “destacamento de altos funcionários estaduais” — que instalações, prédios públicos, veículos e outros bens do Estado foram utilizados para atos de proselitismo, enquanto a emissora oficial de televisão venezuelana, ministérios e outros órgãos públicos promoveram em suas redes sociais hashtags em apoio à campanha de Arreaza.

Além da mobilização de recursos, o fato é que importantes atores políticos como Diosdado Cabello, considerado o número dois do chavismo depois de Maduro, e até figuras simbólicas como Maria Gabriela e Rosinés Chávez, filhas do falecido presidente venezuelano, estiveram em Barinas dando apoio à campanha de Arreaza.

Paradoxalmente, apesar de toda esta mobilização, os resultados obtidos pelo chavismo nas eleições de domingo foram piores do que os obtidos no pleito de 21 de novembro em Barinas.

Se a diferença entre Freddy Superlano e Argenis Chávez foi de menos de um ponto percentual, na segunda edição da disputa, a diferença entre a oposição e o chavismo aumentou para 14 pontos.

  • Redação
  • BBC News Mundo

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